quinta-feira, 20 de outubro de 2016

"Queime tudo o que puder : as cartas de amor as contas telefônicas
o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de papel.
...Seja como os lobos :

more num covil e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.A verdade não pode ser dita".



Lêdo Ivo, poeta nascido em Maceió em 1924 e vivo ainda hoje

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